Que Horas Ela Volta?

Que Horas Ela Volta? (2015) conta a história de Val (Regina Casé), uma mulher que deixou sua família no nordeste para trabalhar como empregada em São Paulo, só assim ela teria condições de mandar dinheiro para sua filha Jéssica (Camila Márdila). Ocorre que, 13 anos depois, ela avisa sua mãe que está indo para São Paulo prestar vestibular para Arquitetura. A chegada de Jéssica desestabiliza a rotina na casa dos patrões de Val e isso acentua mais os limites pré estabelecidos entre patrões e empregados.

Vou ser bem sincera com vocês, quando esse filme estreou no cinema, eu não dava nada por ele, porque embora o cinema nacional tenha seu destaque na mídia, ele não é ainda da mesma imensidão e tão sedutor quanto o cinema internacional. Esse é um fato que temos que ser honestos. O cinema nacional é bom e altamente promissor, mas você escuta muitas pessoas descartando de cara os filmes brasileiros. Nós ainda nos focamos muito na indústria da comédia, porque ela tem seu lucro, mas fazer muitos filmes cômicos e com um roteiro pobre, enfraquece o cinema nacional e desestimula que muitos optem nas bilheterias pelos nossos longas. Que Horas Ela Volta? é um drama que fortalece positivamente o nosso amor pelo cinema.

Eu resolvi assistir esse filme por indicação da mãe de um amigo meu, ela falou muito bem do longa e trouxe a tona a fronteira invisível que existe entre as classes, a diferença social e a discriminação que pode existir dentro da casa de cada um de nós. Será que alguém que possui uma condição de vida diferente da nossa merece um tratamento desigual? É beirar os limites da hipocrisia falar que uma empregada que trabalha há anos dentro da sua casa, é considerada como membro da família, mas ainda possuir limites pré estabelecidos, uma alimentação diferenciada e uma inferiorização passada por gerações. É engraçado, porque vemos isso não só dentro de casa, mas até em outras relações de trabalho, porque um chefe muitas vezes não sabe a diferença entre liderar e discriminar, ele não sabe que a distância existente entre ele e um empregado não pode ser mantida na violência moral e inferiorização. Então não é só dentro de casa que podemos lidar com essas questões, no dia a dia, na rua, no trabalho, todos nós podemos ser vítimas ou mesmo causadores de situações assim. O longa quer que você reflita sobre sua vida, sobre seu comportamento perante a sociedade.

A questão é que cada um de nós temos os nossos preconceitos, mas é como lidamos com isso que faz toda a diferença. São nossas atitudes que refletem o lado positivo da sociedade e a exteriorização do melhor de nós que tem o poder de modificar o nosso ser. Somos o reflexo de uma geração, mas também somos o espelho da próxima, devemos ensinar aos nossos filhos e as pessoas que nos cercam, o verdadeiro valor humano.

Fazia algum tempo que eu não via um filme da Regina Casé, e só uma coisa me veio a mente, porque que ela não atua mais no cinema brasileiro? Vocês precisam ver a interpretação dela no longa e perceber o quão fantástica ela é como atriz. Os pequenos detalhes e os pequenos gestos provam como ela é cuidadosa na tarefa de desenvolver um personagem, que pode parecer simples, mas que alguns atores não conseguiriam fazer. Outra atriz que ganhou destaque foi Camila Márdila, porque ela conseguiu ser simples e espontânea, ou seja, ela atuou tão bem que eu não ficaria surpresa se a visse sendo escalada para mais e mais filmes. Camila promete como atriz.

Como curiosidade, a atuação de Regina Casé foi tão boa, que ela foi premiada no Festival de Filmes de Sundance 2015, na categoria de dramas no cinema mundial. Desde Eu Tu Eles que ela não ganhava um prêmio internacional.

A diretora e roteirista do longa é Anna Muylaert, que já trabalhou como roteirista nos filmes É Proibido Fumar, Xingu, O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias, Irmã Dulce, entre outros. Muylaert é uma excelente roteirista e mostrou todo o seu talento como diretora, realizando um trabalho incrível no longa Que Horas Ela volta?. Ela ainda trabalhou em séries como Mundo da Lua, Castelo Rá-Tim-Bum e Preamar, ou seja, ela acaba de ganhar toda a minha admiração e espero com ansiedade ver outros filmes dela na telona.

Resumindo, o filme é bom e vale muito a pena assistir, porque o longa tem como proposta te trazer para uma realidade que você tem contato no seu dia a dia. Ele quer expor a hipocrisia humana e porque certos comportamentos são repetidos por gerações sem nenhum questionamento. Qual é a diferença entre eu e a pessoa que me ajuda nas tarefas domésticas? A resposta é simples, nenhuma.

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Desejo a todos um bom filme e muita pipoca!!!!

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